AUTONOMIA E REFORMISMO



AUTONOMIA E REFORMISMO

POR PAULO ARANTES


O discurso autonomista está na moda entre os movimentos políticos marginais. Passou a ser chique se dizer autonomista, anarquista e outros istas por aí. O autonomismo é um filho bastardo do obreirismo[1]. Na verdade, a diferença entre obreirismo e autonomismo é praticamente inexistente. O autonomismo tende, em certas circunstancias, a se tornar um reformismo. É este autonomismo reformista – que não expressa todas as tendências autonomistas – que queremos abordar aqui.
O autonomismo reformista contemporâneo tem uma forte influência do chamado “pós-modernismo”. Criando o reboquismo[2] ou o seguidismo. Estas tendências não ultrapassam o nível das lutas dos trabalhadores, ficam presos nas lutas cotidianas, ao invés de ir além delas e se anulam e fazem de sua concepção teórica e política um recuo e assim reproduzem as práticas burguesas do movimento operário e não ultrapassam o nível do reformismo com discurso revolucionário.
O novo surge, nessa concepção, da reprodução do velho e não da gestação do novo. Pensam que o novo pode surgir apenas do proletariado, dos trabalhadores massacrados pelo capitalismo e que qualquer interferência é nefasta, menos a deles, que fica no campo da própria classe cotidiana e limitada, caindo assim no reformismo autonomista.
Assim, temos o proletariado não como classe revolucionária por sua posição nas relações de produção, o processo de exploração e alienação a que está submetido e, por isso, é uma classe negativa, que nega isso e que realiza esta negação de forma efetiva nos dias de luta revolucionária. Os autonomistas reformistas se limitam a pensar a classe tal como existe, esperando dela um milagre que a fará revolucionária e enquanto isso não podemos antecipá-la, apenas acompanhá-la.
É a ideia do proletariado-messias[3]. Uma visão religiosa do proletariado e não é sem motivo que muitos se aproximam de cultura indígena ou religiões e misticismo para fundar sua seita semi-religiosa do proletariado. Esses autonomistas não conseguem explicar nada sobre como esse proletariado divinizado não realizou a tão sonhada revolução apesar de já existir há séculos e ter tido oportunidade para isso.
Os autonomistas reformistas pensam no proletariado afirmativo, orgulhoso e que se identifica consigo mesmo. Ao invés de pensar como Marx, que o proletariado é revolucionário quando realiza a negação do capital, o que significa negação de si mesmo, já que abole o capital, a base de sua existência e da burguesia, gerando o comunismo, o proletariado negativo, pensam o proletariado positivo, adaptado à sociedade burguesa e fazendo reivindicações assimiláveis por tal sociedade.
Ao contrário do proletariado positivo dos autonomistas reformistas e positivistas, é necessário resgatar o proletariado negativo, dos comunistas autogestionários. O proletariado é o sujeito revolucionário, mas só quando deixa de ser reformista e passa a ser revolucionário, uma obviedade que os autonomistas reformistas evitam e alguns tentam resolver dizendo que o proletariado cotidiano, positivo, integrado no capitalismo, reformista, se transformará em revolucionário com o passar do tempo, embora o tempo passa e eles nunca se tornam isso. Sem dúvida, uma visão mística, já esboçada por Rosa Luxemburgo, e desenvolvida por místicos de esquerda que, na falta de pensar uma ação revolucionária embasada no materialismo histórico, prefere lançar-se de joelhos aos instintos das massas.
Essa nova ideologia de esquerda, deve ser criticada e superada para o bem do movimento revolucionário, já que tais tendências tendem a reforçar as forças reformistas e burocráticas. As lutas operárias cotidianas não são lutas revolucionárias e embora tendam a se tornar revolucionária[4], isso só ocorre com o tempo e as lutas travadas e, nesse sentido, as lutas cotidianas devem ser superadas por lutas revolucionárias e essa passagem não é automática e sim produto da luta, que envolve todos, inclusive os revolucionários.
Superar o autonomismo reformista é uma tarefa atual do movimento revolucionário!!!


[1] Por obreirismo se entenda a tendência de determinadas correntes de esquerda, tal como setores do autonomismo italiano e português, em fazer o culto do trabalhador e de uma mística autonomia operária, abstraindo a luta de classes, e demais tendências e pressões sociais sobre os trabalhadores, o que servem para se omitirem das lutas operárias, para se integrar nelas através do seguidismo ou então ficar apenas na discussão teórica e cultuando um proletário que irá autonomamente e isoladamente se libertar.
[2] Veja Nildo Viana. Manifesto Autogestionário.
[3] Há todo um debate sobre isso, com as infelizes investidas de John Holoway, Mudar o mundo sem tomar o poder. Gorz iniciou, de forma limitada e com equívocos, a crítica a esse messianismo obreirista em Adeus ao Proletariado.
[4] Veja sobre isso Karl Jensen, “Os limites do autonomismo”.

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