O QUE EXISTIA ANTES DO CAPITALISMO?
O QUE EXISTIA ANTES DO
CAPITALISMO?
(texto didático I)
Paulo Cassimiro Arantes
O capitalismo é uma forma de sociedade que surge em meados do século 16,
embora já estivesse nascendo no decorrer dos séculos anteriores, em alguns
países da Europa Ocidental e vai se expandindo, pouco a pouco, pelo mundo
inteiro. Antes de falar do capitalismo devemos falar um pouco das sociedades
que o precederam. Vejamos o desenvolvimento histórico na Europa Ocidental:
Sociedades Tribais, Escravismo Antigo, Feudalismo.
As Sociedades Tribais foram
sociedades sem classes sociais, sem exploração. A divisão social do trabalho
era uma divisão natural do trabalho,
determinada pela formação física dos indivíduos e por isso era uma divisão
sexual (mulheres/homens) e etária (crianças/adultos). No entanto, estas
sociedades se caracterizavam, também, por uma enorme dependência em relação ao meio ambiente, pois não tinham um
desenvolvimento tecnológico considerável. As sociedades de caçadores e
coletores, por exemplo, dependiam do que estivesse disponível no meio ambiente
(caça, pesca, frutos) e por isso eles eram nômades. A organização social
se fundamentava em tribos. Este tipo de sociedade foi, pouco a pouco,
substituída pela sociedade escravista na Europa Ocidental. Em outros
continentes, tal forma de sociedade foi substituída por outras formas de
sociedade, principalmente devido ao processo de expansão capitalista. Ainda
existem alguns resquícios deste tipo de sociedade em alguns países, onde são
chamadas de sociedades indígenas.
A Sociedade Escravista Antiga surge na Europa Ocidental a partir do
momento em que os seres humanos criam a divisão
social do trabalho. O processo de especialização de tarefas se intensifica,
dando origem aos primeiros grupos
sociais, embriões das classes
sociais. Agricultores, pastores, ceramistas, guerreiros, sacerdotes
etc., passaram a constituir estes grupos sociais. Neste período, os seres
humanos já tinham desenvolvido várias técnicas, instrumentos etc. que
possibilitava uma maior autonomia em relação ao meio ambiente. A domesticação
dos animais, a arte da agricultura, ferramentas etc. permitiam ao ser humano
ter um domínio maior sobre o meio ambiente e proporcionou algumas mudanças
sociais, tal como a transformação de nômades em sedentários. Isto
possibilitou o surgimento da propriedade
privada, ou seja, o aparecimento de um novo tipo de relação social, nos
quais alguns seres humanos passaram a ser proprietários e outros
não-proprietários. O grupo social composto pelos guerreiros, responsáveis pela
proteção das tribos em relação a outras tribos, matavam os prisioneiros de
guerra mas logo perceberam que os seres humanos, tal como os animais, podem
viver sob o domínio de outros. Ao invés de matar, passaram a escravizar os
prisioneiros de guerra. Nasce assim a escravidão, a sociedade escravista
antiga. Surge, assim, a sociedade de
classes. As duas grandes classes sociais são os senhores de escravos e os escravos.
Com o trabalho escravo foi possível liberar grande parte dos seres humanos do
trabalho manual, surgindo os filósofos – dedicados somente ao trabalho
intelectual –, os governantes etc. Além dos escravos de guerra também se
institui a escravidão por dívidas, pois era necessário aumentar o número de
escravos. Trata-se de uma sociedade fundamentada na exploração de alguns seres humanos sobre outros. Os escravos
produziam as riquezas mas elas eram usufruídas por outros, os senhores de
escravos. As pirâmides do Egito, por exemplo, foram produtos do duro e penoso
trabalho escravo, e foram utilizadas para e pelos senhores de escravos. Surgiu
o Estado para manter a dominação de classe, através dos
guerreiros que combatiam qualquer rebelião escrava. A mais famosa rebelião de
escravos foi a de Spartacus. Esta rebelião assustou a classe senhorial. Também
surgiram idéias para justificar e legitimar a escravidão, tal como as primeiras
concepções filosóficas expressas por Platão, Aristóteles, entre outros.
A sociedade escravista durou séculos mas acabou entrando em crise e sendo
substituída pela Sociedade Feudal. A
sociedade feudal também era uma sociedade fundamentada na exploração de uma
classe social sobre outra, mas de forma diferente. Era uma sociedade que se
organizava em torno do feudo. O feudo era uma propriedade de terra que
era dominado pelo senhor feudal. A
Igreja Católica, que fora perseguida durante grande parte do período histórico
do escravismo, era a maior proprietária de terras e o clero era, na verdade, um
conjunto de senhores feudais via igreja. Mas ao lado dos proprietários havia os
não-proprietários. Estes se chamavam servos.
Eles não tinham como produzir seus alimentos, suas roupas etc. Por isso, tinham
que aceitar trabalhar nos feudos. Eles se submetiam a um senhor feudal, que
lhes cediam um pedaço de terra para sua sobrevivência e em troca cobrava
trabalho nas terras do senhor. O feudo era dividido em terra do senhor feudal e
terras dos servos, mas estes deveriam trabalhar parte da semana nas terras do
senhor para poder usufruir de suas terras. Além disso, deveria fazer outros
serviços, pagar impostos etc. A Igreja cumpria o papel de legitimadora e
justificadora desta sociedade baseada na exploração. Através da religião, que
afirmava que os seres humanos nasceram para serem servos, senhores feudais ou
clérigos e esta ordem era imutável, a Igreja cumpria o papel de amortecer os
conflitos de classes. Mas quando o mundo das idéias não era suficiente para
garantir a ordem, havia os guerreiros para impô-la pela força.
Com o passar de alguns séculos, a sociedade feudal também entrou em
declínio. A forma de se trabalhar a terra era predatória, e levava à
deterioração do solo. As lutas entre servos e senhores feudais, bem como de
outras classes sociais, se intensificou cada vez mais. Além disso, houve um processo
de expansão comercial e formação de um novo grupo social: os mercadores. Estes viajavam a longas distâncias, comprando
produtos variados por um preço e vendendo-os por um preço mais elevado, e
pernoitavam nas vilas que iam se formando em volta dos mosteiros. Com o passar
do tempo, surgiram novos grupos sociais, como os artesãos, que vendiam seus
produtos aos mercadores. Houve um processo de centralização do Estado, de
urbanização, de crise da propriedade feudal, o que gerou a metamorfose do mercador
em capitalista. Nasce assim uma nova classe social, a burguesia ou classe
capitalista. Esta teve sua primeira manifestação através da manufatura. A
burguesia nascente não comprava as mercadorias dos artesãos mas os contratava e
os colocavam para trabalhar num local sob sua vigilância. Assim evitava desvios
de matérias-primas e podia controlar o tempo de trabalho do trabalhador. Os
artesãos assim se transforma em operário. Ele é um trabalhador que se viu
destituído de qualquer propriedade, a única coisa que possui é sua força de
trabalho. O capitalista compra sua força de trabalho e lhe paga com o salário.
Assim, surgem as duas classes sociais fundamentais do capitalismo: a burguesia
(classe capitalista) e o proletariado (classe operária). A fábrica passa a ser
o local de trabalho e de exploração do proletariado[1].
Atenção: no próximo número, Texto Didático II: O Que é o capitalismo?
[1] Ler mais
para uma formação comunista autogestionária: sobre o pré-capitalismo: Karl
Marx: A Ideologia alemã; Karl Marx: Formações econômicas pré-capitalistas;
Nildo Viana: A Consciência da História; Nildo Viana: Estado, democracia e
cidadania; Friedrich Engels: A Origem da família, da propriedade privada e do
Estado.
Comentários
Postar um comentário